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Como a farmacogenética ajuda no tratamento da depressão?

Luiz Sperry

11/02/2019 04h00

Crédito: iStock

Eventualmente eu expresso uma certa desconfiança com a psicofarmacologia atual. Reparando bem, não há nada de realmente novo sob o sol nos últimos anos, sendo o suposto novo, no fundo, apenas o velho com uma roupagem diferente. Os remédios para depressão ainda são os mesmos, antipsicóticos e estabilizadores de humor, idem. Mas há uma discreta novidade, que são os testes farmacogenéticos. O que são? Para que servem?

Bem, os testes farmacogenéticos são um jeito de se conseguir prever não a resposta do tratamento com determinado antidepressivo, mas sim o jeito que o seu corpo vai lidar com determinada medicação. Explico melhor. O principal órgão responsável pelo metabolismo das medicações é o nosso fígado. Ou seja, a medicação que você toma é processada no fígado e transformada em outras coisas que serão então eliminadas do corpo. Por isso que o efeito de cada medicação tem uma duração determinada; é o tempo que o seu fígado leva para metabolizá-la.

Acontece que existem fígados e fígados. Enquanto alguns fígados são preguiçosos e demoram mais para processar as substâncias, outros são vorazes e metabolizam muito rápido. A grande maioria das pessoas são metabolizadoras normais, e conseguem lidar com os medicamentos da forma prevista. Porém existe uma pequena parcela de aproximadamente 17% de metabolizadores lentos, que demoram a metabolizar as medicações. O resultado disso é que essas substâncias acabam se acumulando no organismo e fazendo um efeito maior que o esperado. Percebemos nesses casos um aumento importante dos efeitos adversos relatados e em consequência mais abandonos de tratamento.

Já os chamados metabolizadores ultrarrápidos têm fígados particularmente eficientes, a droga é rapidamente convertida em outras substâncias e acaba por ter seu efeito rapidamente reduzido. Em geral se apresentam clinicamente como casos de resistência ao uso de antidepressivos ou necessitam de doses muito mais altas do que o usual para ter um efeito perceptível.

As enzimas hepáticas responsáveis por esse processo são chamadas enzimas do citocromo P450 (CYP450). Elas são codificadas geneticamente, de modo que uma análise genética é capaz de indicar se a pessoa é uma metabolizadora rápida ou lenta para cada medicação específica. A análise do CYP 450 não consegue dizer exatamente qual remédio vai funcionar para você, já que o sucesso de um medicamento depende de outras coisas além de seu metabolismo hepático, mas dá boas dicas de quais medicações não se devem usar. Tirando-se fora as que têm maior chance de dar errado aumenta a chance de dar certo, não?

É o que dizem os trabalhos, que indicam que apesar de ser um teste caro (algo entre R$ 3.000 e R$4.000, aqui no Brasil) o uso do teste farmacogenético aumentou a chance de sucesso no tratamento de forma significativo. Olhei os estudos com cuidado e não posso afirmar categoricamente com essa indicação. Sem dúvida ter essa informação de saída vai ajudar na escolha da medicação mas, tendo em vista que é uma menor parte da população que poderia se beneficiar dessa investigação, coloco minhas barbas de molho quanto ao real custo-benefício de fazê-la de forma sistemática.

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.

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