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Blog do Luiz Sperry

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Por que as eleições deixam todos loucos? Freud explica

Luiz Sperry

01/10/2018 04h00

Crédito: iStock

A impressão corrente é que todo mundo enlouqueceu. Não é de hoje, bem sabemos, e há tempos que se anuncia que essa seria "a campanha mais suja da História". Pois bem, as profecias se realizaram. E se você também acha que está todo mundo louco, tenho uma notícia: você tem razão.

Antes de vocês acharem que sou daqueles psiquiatras grotescos que acreditam que tudo é doença mental, me explico. As pessoas não estão enlouquecidas pelas doenças mentais mais óbvias, como depressão ou ansiedade (embora essas doenças estejam cada vez mais presentes por aí). Estão vivenciando um fenômeno mais ou menos particular que chamamos de "fenômeno de massa". Não é a primeira vez que falo disso nesse blog. Corro o risco de ficar maçante e repetitivo, mas acredito que eventualmente precisamos ser repetitivos se queremos nos fazer entender. O deslize estético é perdoável se a mensagem é importante e se faz urgente.

Volto a citar a obra prima de Freud "Psicologia das Massas e Análise do Eu" (Obras Completas, volume 15 – Companhia das Letras). Freud, o Pai-de-Todos, defende que as pessoas quando se sentem pertencentes a um grupo, adquirem aspectos psicológicos particulares que alteram seu funcionamento mental e seu comportamento. É aquele velho aforisma "ele quando está sozinho é uma pessoa, com os amigos vira outra pessoa", só que potencializado muitas vezes.

Freud, citando Gustave Le Bon, enumera três mudanças principais no sujeito quando está envolvido pela massa:

Em primeiro lugar ele perde o que chamamos de "medo social". A sensação de pertencimento a um grupo faz com que as pessoas se sintam mais poderosas e consequentemente mais corajosas. E obviamente mais inconsequentes e desrespeitosas. Os recalques internos perdem sua força e admite-se pensar ou eventualmente fazer coisas que antes seriam inadmissíveis.

Uma segunda característica é o caráter contagioso dos afetos. Dentro de uma massa, uma resposta afetiva tem o efeito de um rastilho de pólvora, se disseminando rapidamente. Uma notícia favorável a um candidato provoca reações entusiasmadas em cadeia de um lado assim como de indignação ao outro, na mesma proporção.

A terceira característica é que, nesse estado, as pessoas ficam absolutamente influenciáveis. O sujeito na massa se comporta como uma espécie de zumbi sugestionável, que dificilmente vai se opor a um comando de um líder qualquer ou mesmo a um movimento de manada das pessoas que o cercam. Não é de se estranhar que as pessoas, mesmo as razoáveis, acabem por compartilhar e difundir mensagens absolutamente estapafúrdias simplesmente porque alguém disse que era verdade.

Se nós juntarmos essas três características, podemos dizer que a pessoa na massa emburrece, ao mesmo tempo em que se torna mais apaixonada e profundamente ressentida. É evidente que, apesar de uma massa tender a nivelar seus integrantes, na medida em que lhes retira suas particularidades e os nivela, nem todos sofrem seus efeitos da mesma maneira. Termina por haver uma regressão das capacidades intelectuais e o aumento da excitação, que nos leva eventualmente a termos impressão de que todos voltaram para a 5a série. Existem pessoas que só imaginam, existem pessoas que xingam no Whatsapp e no Facebook, existem pessoas que fazem ameaças concretas e pessoas que passam ao ato, tipo espancar ou esfaquear os inimigos.

Freud escreveu isso em 1920, um ano antes de Mussolini chegar ao poder na Itália, dois antes de Stalin e treze antes da ascensão de Hitler na Alemanha. Não por coincidência, todos eles utilizavam largamente propaganda enganosa para chegar ao poder e para mantê-lo. Hitler e Mussolini sempre apostando na paranoia da "ameaça comunista" assim como Stalin apontava os "traidores da Revolução". Eram as fake news pré-internet.

É justo aqui ressaltar o papel da própria rede nesse processo todo. Como podemos observar, esses movimentos já existiam há muito tempo. Provavelmente Stonehenge e as pirâmides do Egito foram construídos por gente assim. Quem, em sã consciência, iria empurrar pedra de 20 toneladas naquela época se não fosse no embalo da massa? Mas nos últimos anos notamos que de fato houve uma exacerbação e um contágio dos afetos sem precedentes. Essa rede nervosa global, trabalhada em fibra ótica, faz a imagem da pólvora parecer até tediosa.

Se antigamente exigia-se um certo trabalho para se juntar à massa, como sair de casa e ir a um jogo de futebol ao menos, hoje a massa vem até você. Basta ter um celular em mãos e você pode ser arrebatado. E em pouco tempo é possível que você esteja relativizando a violência, a tortura, o racismo e o machismo.

Boa semana e uma boa eleição a todos.

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.