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Blog do Luiz Sperry

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O extremismo está crescendo, ele está no meio de nós

Luiz Sperry

06/08/2018 04h00

Crédito: iStock

As eleições estão aí. Com um passo meio estranho, por conta dessa confusão em que o país se meteu e da Copa do Mundo, chegamos a dois meses do pleito e as chapas nem formadas ainda estão. Muita incerteza por todos os lados, mas pode-se dizer que essa eleição já está marcada pelo extremismo.

O extremismo consiste em tomar uma posição política radical, geralmente marcada por uma grande inflexibilidade. Posturas radicais normalmente levam as pessoas a uma certa dificuldade de convivência, porque a sociedade tende a normatizar os padrões de comportamento e tudo aquilo que se afasta em certa medida dos padrões da normalidade tende a ser repelido pelo conjunto. Dessa maneira, o radicalismo tende a se agrupar em comunidades menores à margem da sociedade.

Existe um artigo longo e precioso de Dale Beran chamado "Trump, os nerds do 4chan e a nova direita dos Estados Unidos" que faz um panorama interessante sobre os eventos recentes lá, e certamente se aplicam ao que ocorre aqui. Diz ele que os fenômenos de radicalismo de direita americanos da última década foram alimentados em sites de discussões (como o 4chan), onde as pessoas podem comentar qualquer assunto de forma anônima. Esses espaços são frequentados em sua grande maioria por homens adolescentes ou, como diz Dale, "homens com mentes de garotos".

São pessoas que em geral não têm uma vida social muito exuberante, ficando preferencialmente recolhidas ao ambiente familiar. Sua principal atividade consiste justamente nesse tipo de interação virtual e em consumo de games e cultura japonesa. Além de pornografia, claro. Não por acaso que, em grupo, a primeira bandeira que surge é justamente contra as proibições.

Em nome de um suposto liberalismo (que às vezes se confunde com o liberalismo de fato, mas não é) são contra os limites de uma forma geral e contra o "politicamente correto". Num segundo momento, voltam-se principalmente contra as mulheres, às quais se referem com termos depreciativos como "merdalher" e daí para baixo.

Como psiquiatra e psicanalista não é necessário fazer muito esforço para enxergar um grupo mais ou menos homogêneo de homens com uma dificuldade sexual. Não é fácil para ninguém ser rejeitado. Pessoas que foram acuadas para dentro de seus quartos e encontram um grupo onde podem dar vazão aos seus desejos de um mundo fantástico, como o dos games, onde eles tenham armas imensas, muitas vidas e as mulheres andem sempre seminuas e sejam submissas.

Evidentemente, esse tipo de postura agressiva encontra uma forte oposição quando se encontra com a dura realidade. As pessoas estão cada dia menos dispostas a tolerar a agressividade do outro, mesmo que seja de brincadeira. Mulheres, gays, e mesmo outros homens que não fazem parte da brincadeira e até anteontem eram alvo estão mais bem preparados para se defender. Os meninos reclamam que "o mundo está ficando muito chato".

E isso nos faz pensar que tipo de idealização corresponderia a um mundo bacana. E aí surge uma contradição, pois aparece um conservadorismo de um mundo que evidentemente não lhes favorece. Tentar se apegar ou conservar algo que lhe causa dor revela uma situação psíquica bastante conflitada. Podemos perceber mais uma vez um discurso onde o outro está excluído. Se o outro não pode trabalhar, não pode entrar na faculdade, não pode aparecer na propaganda, não pode ser protagonista, ele serve apenas como um figurante na narrativa (o que nos games poderia ser chamado de NPC).

Mas é importante mencionar que a oposição a esses movimentos extremistas tende a ser de um certo modo extremista também. Ao rotularmos o outro de fascista, por exemplo, tiramos dele os traços de humanidade que poderia estabelecer algum laço possível. O outro igualmente deixa de ser visto como semelhante e se torna mais um inimigo a ser destroçado. Voltamos ao matar ou morrer da Segunda Grande Guerra. Ao horror em estado puro. Esquecemos (e uso a primeira pessoa do plural para me incluir nessa) que talvez ele seja apenas um menino frustrado querendo brincar com suas arminhas.

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.