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Blog do Luiz Sperry

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Delirium é um diagnóstico subestimado e importante

Luiz Sperry

2023-07-20T18:04:00

23/07/2018 04h00

Crédito: iStock

Encontrei esses dias um artigo recente chamado "O delírio agudo do Papa Bonifácio VIII", do British Journal of Psychiatry. Para mim, que tenho uma queda por delírios e papas em geral, irresistível. Bonifácio foi papa lá pelo ano de 1300, numa época de fortes disputas pelo controle da cristandade. De um lado, as famílias italianas, às quais ele (nascido Benedetto Gaetani) pertencia, e de outro a França, na época o principal país católico da Europa e doido para acabar com o conluio dos italianos que não largavam o santo osso.

Pois bem, na época reinava na França o Rei Filipe IV, também chamado de o Belo, que além de muito bonito era também bastante cruel e severo. Resolveu taxar o clero francês e o papa o advertiu que não tocasse no dinheiro da igreja. Após ameaças de lá e excomunhões de cá, o rei perdeu a paciência e mandou uma tropa ao palácio do papa para prendê-lo e levá-lo a julgamento. No meio da bagunça toda, o Papa Bonifácio, já com mais de 70 anos, tomou uma bordoada e despencou no chão. Dizem que foi espancado e quase morreu. Numa última reviravolta, aliados do papa conseguiram expulsar os invasores. Mas já era tarde: o papa nunca mais se recuperaria das agressões.

Ficou desorientado, sofrendo de alucinações visuais e auditivas; convulsões. Seu estado variava entre o torporoso e períodos de agitação. Ficou agressivo com as pessoas próximas e, dizem, se mordia. Faleceu cinco semanas depois.

Essas reconstruções históricas obviamente estão sujeitas a uma série de imprecisões, mas conclui o próprio artigo do BJP que provavelmente o papa sofria de um quadro chamado de delirium. O diagnóstico de delirium, também chamado de estado confusional agudo é uma situação muito comum, mas pouco reconhecida, e a grande maioria das pessoas nunca ouviu falar. Consiste num estado de confusão mental desencadeado por um problema clínico. Quanto mais idosa a pessoa e quanto mais grave o problema de saúde, maior a probabilidade de delirium. E se ela tiver algum grau prévio de demência, mais provável ainda.

No caso do desafortunado Bonifácio, foi provavelmente o trauma encefálico. Mas pode ser desencadeado também por desidratação, diabetes descompensado, insuficiência renal, uso de medicamentos e, sobretudo, infecções. Dentre as infecções, as mais frequentes são as urinárias, e em segundo lugar as pulmonares. É tão frequente que pode acometer até 80% dos pacientes internados em unidades de terapia intensiva. Isso não é pouca coisa.

Os pacientes em geral ficam muito parecidos com a descrição do Papa Bonifácio: alterações do nível de consciência, com uma tendência da inversão do ciclo sono-vigília (ou seja, fica sonolento de dia e agitado de noite), desorientação no tempo e espaço (não sabe onde está nem que dia que é), sintomas psicóticos como delírios, alucinações e agressividade. É digno de nota falar que a abstinência de álcool causa um tipo específico de delírium chamado de delírium tremens, que tem um tratamento específico.

Em geral, é um sinal de gravidade e está associado a uma mortalidade maior do que quadros semelhantes que não apresentam sintomas psiquiátricos associados. Mas se tratado adequadamente, com antipsicóticos, a resposta ao tratamento costuma ser boa. Sempre é bom lembrar que, uma vez que a causa é orgânica, ela deve ser tratada também. Não adianta tratar somente a parte psiquiátrica ou somente a parte clínica, tem que tratar as duas.

Claro que o delirium não é exclusividade papal. Acontece todo dia nos hospitais, enfermarias, UTIs e até mesmo em casa. É importante que os próprios médicos pensem nessa hipótese quando um paciente aparecer confuso. Especialmente os idosos.

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.